Confúcio e a arte

Há quem diga que não existe filosofia chinesa. Geralmente, por falta de conhecimento, mesmo acadêmicos que receberam boa formação costumam rotular com o termo “oriental” o pensamento produzido em culturas bem diferentes como a da Índia, da China, do Japão etc. A existência ou não de uma filosofia chinesa não é o assunto deste texto, mas uma coisa é certa: não se pode negar a existência da arte chinesa e do próprio conceito de arte naquela cultura, o que para alguns filósofos seria o sinal da existência de uma filosofia. De qualquer modo, a China teve Confúcio, e a influência do pensador para a arte chinesa do período imperial pode ser vista de modo bem claro nas pinturas cujo tema é a figura humana.

Quando pensamos em pintura chinesa, talvez a imagem que mais rapidamente seja associada com a mesma não é a pintura de retratos ou da figura humana, mas sim a pintura de paisagem. Na verdade, este é só um dos gêneros da pintura chinesa. Na antiguidade, a pintura de retratos e a pintura histórica eram os principais gêneros, uma vez que a pintura estava subordinada à uma função bem precisa, a saber, a de educar nas virtudes através da visão. Si Maqian, o grande historiador da dinastia Han, descreve uma visita de Confúcio à capital de Zhou. No Palácio das Luzes, isto é, o centro político da capital, Confúcio teria visto inúmeras pinturas murais representando os soberanos da antiguidade (pois é, no tempo de Confúcio já existia a idéia do antigo em contraste com o contemporâneo). A pintura do Palácio das Luzes deveria ilustrar o bom e o mau governo através da representação de figuras históricas.

Nos Analetos, há uma passagem em que se cita a pintura. Confúcio nunca discutiu a pintura, uma razão para isto talvez seja o fato de que no período da Primavera e Outono (770-476 a.C), a pintura fosse uma atividade considerada inferior. Naquele período, o prestígio social do pintor era o mesmo prestígio que um pedreiro tem para nós hoje, ou seja, nenhum. Confúcio gostava de discutir poesia. E isto fica latente nesta passagem dos Analetos:

Zixia disse: “Seu sorriso, gracioso! Seus olhos de negros e brancos bem delineados, belos! Sobre o branco, as cores!” O que significa? Confúcio disse: pinta-se por sobre uma superfície branca. Zixia disse: o rito é póstumo? Confúcio disse: Shang, você me inspira! Agora podemos começar a discutir o Clássico da Poesia!(em chinês: 子夏曰: 巧笑倩兮!美目盼兮!素以为绚兮!何谓也?子曰:绘事后素.:礼后乎?子曰:起予者商也!始可与言诗已矣!)

Zixia era um dos discípulos de Confúcio, as duas primeiras frases que ele diz são extraídas do Clássico de Poesia. Zixia tinha dúvidas sobre estas duas frases, que ele não conseguia entender. A última frase – sobre o branco, as cores – tem a ver com pintura, e Confúcio primeiro responde sobre a questão da pintura. E a reação de Zixia deixou Confúcio entusiasmado, pois o discípulo entendeu a resposta do mestre – que era apenas uma descrição de como os pintores conduzem seu trabalho – como sendo uma metáfora para a benevolência () e o rito (), duas noções centrais do confucionismo. Esta é a leitura oferecida pela historiografia erudita para o trecho acima citado. Os eruditos chineses entendem que a pergunta de Zixia – o rito é postumo? – seria uma interpretação do discípulo da doutrina do mestre tendo a pintura como intermediário. O rito de que fala Confúcio não é o ritual da religião, mas sim o conjunto das regras que permitem a vida em sociedade ser conduzida de maneira que a virtude mais importante – a benevolência – não seja perdida para a bárbarie. Zixia foi inteligente ao perceber que o rito era só um meio, e não um fim, para a existência da benevolência, que no mundo antigo chinês era uma virtude e, como tal, pertencia ao campo do visível, do que pode ser verificado por meio do que se faz e da relação deste fazer com o lugar que se ocupa na sociedade.

Mas como aparece este jogo da benevolência e do rito na pintura chinesa? Em primeiro lugar, é preciso saber que no pensamento antigo chinês, a benevolência é também aquilo que é o belo. Assim sendo, a pintura chinesa certamente tem alguma relação com o que é o belo, com um ideal do belo. Este ideal do belo, na arte ocidental, pode ser visto de modo magnífico no corpo humano nu, no valor dado ao corpo pelos humanistas, visível nos modelos clássicos do mundo antigo greco-romano que foram resgatados durante o Renascimento. O ideal do belo representado no corpo, poderíamos dizer, perfeito, de um Davi de Michelangelo não encontra paralelos na arte chinesa, seja na pintura ou na escultura. A influência da beleza de um Davi na sociedade ocidental pode ser sentida até hoje: não é um corpo como aquele que se busca nas academias de musculação? As mesmas academias de musculação não são uma febre tão grande na China contemporânea, e o corpo “sarado” de Davi não faz parte do ideal do que seja o belo nem da história da arte chinesa nem da cultura de massas e da mídia na China. Alguém poderia dizer que isto é assim pois faltou aos chineses a arguta observação da natureza que os gregos possuíam. Apenas um ignorante em matéria de história da arte poderia fazer uma afirmação deste tipo. Basta olhar, por exemplo, para as esculturas em bronze de animais feitas no período da Primavera e Outono e dos Reinos Combatentes para saber que, muito cedo, os artistas chineses já possuíam um excelente senso de observação do mundo natural, sendo capazes de imitar suas formas com perfeição. Não é que os chineses não soubessem como esculpir ou pintar o corpo humano nu, mas é que lhes faltou o interesse para tal. A razão da persistência disto na história da pintura chinesa tem que estar em Confúcio.

Basta olhar algumas pinturas chinesas representativas do gênero da figura humana para que se perceba que o belo não era buscado no corpo nu, e que a exclusão da nudez não está atrelada à exclusão da sensualidade, pois como nota o historiador da arte Zhang Yanyuan (张彦远), da dinastia Tang (618-907 d.C, período em que surge a primeira obra de história da arte na China): “nas pinturas antigas, as concubinas eram representadas esguias e com suas vestes apertando-lhe os seios.” Foram os seios que chamaram a atenção de Zhang Yanyuan nas pinturas antigas das concubinas, e a sensualidade dessas mulheres estava antes no modo como seus seios eram escondidos e sugeridos por suas vestes que na exposição dos mesmos. Isto pode ser visto, por exemplo, na pintura As damas (簪花仕女图, Museu Liaoning) de Zhou Fang (周昉), pintor da dinastia Tang, que tem como objeto de representação as mulheres da alta sociedade do período. Logo de cara, chama a nossa atenção o fato de as mulheres representadas não serem esguias como aquelas das pinturas antigas das quais nos fala Zhang Yanyuan. Na pintura contemporânea a Zhang, as mulheres são representadas como era o gosto da época: não tão magras, um pouco mais “cheinhas”, como fica bem evidente pelos rostos das damas na representação (que sugerem ser a mesma mulher representada em diversas posturas).

É muito evidente o desejo de Zhou Fang de representar com fidelidade as vestes usadas pelas damas da dinastia Tang. Aliás, a não fidelidade na representação das vestes era, para Zhang Yanyuan, um erro que o pintor deveria evitar. Na dinastia Tang – que foi um período da valorização da história por excelência – Zhang exige dos pintores que eles demonstrem seu conhecimento da história, evitando que se pinte adornos e vestes inadequados à dinastia da figura representada. Note-se o estudo da textura dos panejamentos e do caimento do mesmo na pintura de Zhou Fang. Não se pode dizer que ele busque uma idéia do belo universal nesta pintura, mas é evidente que ela estão imbuída de uma delicadeza e de uma sofisticação que são próprias à cultura em que as damas se inserem, pois as damas se vestiam assim para serem vistas no esplendor da sua posição social. Foi amarrada uma fitinha vermelha ao pescoço do pequeno cachorro que acompanha a dama: a fita vermelha não é apenas um adorno, assim como as vestes não são simples adorno, é a própria idéia de inserção na comunidade humana aquela fita, uma maneira de se vestir o animal, trazendo-o para perto do mundo dos homens através de algo mais que o afeto.

Olhando para a delicadeza das vestes na pintura de Zhou Fang, não há como não pensar na representação das vestes numa cópia da dinastia Song (960-1279) da pintura A deusa do rio Luo (, Museu da Cidade Proibida) de Gu Kaizhi (顾恺之), pintor da dinastia Jin do Leste (316-420 d.C.). Podemos ver nesta obra, em estado potencial, a beleza dos panejamentos que vemos em Zhou Fang, além do cuidado com a representação do modo como se prende o cabelo e com o gestual. No detalhe abaixo, podemos ver como os panos se movem excitados pelo vento. A deusa olha para a mesma direção em que segue o vento. Seu rosto é mais magro que o da dama pintada por Zhou Fang, mas em ambos os casos, a brancura da pele é um critério para a beleza que se deseja.

Estas imagens de mulheres bem vestidas e adornadas foram produzidas quando o conceito de arte já havia se formado na China. Mas tais imagens não se prestam tanto à afirmação de tal conceito, elas são mais uma maneira que os próprios chineses – isto é, a etnia han – encontrou de representar a si mesma e ao seu ideal de civilidade. Para a etnia han (que é aquilo que o senso comum associa com o termo “chinês”), todos as outras etnias da Ásia – o que inclui os tibetanos e os mongóis – não eram outra coisa senão povos bárbaros. O fundamento da cultura, para os Han, residia justo no rito, e o rito excluiu da pintura a nudez, pois a nudez não faz parte daquilo que é público, ela pertence à esfera do privado. Neste aspecto, as pinturas chinesas antigas são um verdadeiro desfile de moda! Assim sendo, as vestes na pintura fazem parte do decoro, isto é, a adequação da pintura à sua função social. Nos livros confucionistas são muitas as descrições das roupas e dos adornos que devem ser vestidos pelas pessoas, de acordo com sua idade e sua posição social. Confúcio certa vez disse: “não se pode não se vestir, sem a vestimenta não há aparência, sem aparência não há decoro, sem o decoro não há o rito, sem o rito nada se estabelece” (em chinês:不可以不饰,不饰无貌,无貌不敬,不敬无礼,无礼不立). O vestir-se é parte fundamental do rito e do decoro, introduzindo um elemento estético na vida social, cujo principal evento no mundo chinês antigo não era nem a arte, nem a religião ou a filosofia, mas a política. 

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